“Imprensa Regional Independente: fundamental mas asfixiada”

Artigo de opinião de Luís Miguel Ferraz, chefe-de-redacção do semanário regional O Mensageiro e director do mensário local Jornal da Golpilheira.

A imprensa regional desempenhou ao longo da história, e contínua a desempenhar hoje, um papel fundamental na promoção da informação de proximidade junto das populações. Faz, como nenhuma outra, um retrato do País real, no seu positivo e negativo, indo ao concreto das situações, das pessoas e dos valores locais – etnográficos, históricos, sociais e humanos – longe dos sensacionalismos dominantes nos tablóides nacionais ou dos temas politicamente correctos da grande imprensa. Ao mesmo tempo, constitui um contributo insubstituível para a literacia do povo, sobretudo nas classes mais simples, mais afastadas dos hábitos de leitura e da programação cultural, pois, em muitos casos, o “jornal da terra” é a única coisa que ainda vão lendo. Porque lhes interessa, fala da sua realidade concreta, da sua gente, dos seus usos e costumes. No mundo da globalização, em que os grandes editores falam todos dos mesmos assuntos, muitas vezes afastados da vida real e desinteressantes para a grande maioria das pessoas, são os jornais regionais os únicos aptos a fazer uma leitura local desses assuntos e a acrescentar ao debate o contributo dos actores e autores de cada comunidade concreta.

Até há duas/três décadas atrás, como produto das pessoas (directores e redactores) mais cultas da população local, este serviço era evidente. A tecnologia era mínima, mas não muito diferente da que estava ao alcance dos grandes títulos. Mas, com a evolução tecnológica galopante dos últimos anos, as grandes empresas de comunicação deram um salto de gigante na organização informática das redacções, na melhoria gráfica dos seus produtos e nas novas potencialidades exploradas ao nível da promoção e marketing dos mesmos. Aí, a grande maioria dos jornais regionais, sobretudo os mais pequenos, não conseguiram acompanhar a evolução, tanto por falta de formação profissional específica dos seus editores, como por escassez de recursos financeiros, sem o suporte de grandes grupos económicos que começaram a dominar a concorrência a nível nacional e, nalguns casos, também a nível regional.

As diferenças começaram, então, a ser mais evidentes, sobretudo na qualidade de apresentação do jornal (gráficas, fotográficas, de paginação, etc.). Isto porque, a nível da qualidade de redacção, nem sempre o mesmo se regista. De facto, há pequenos títulos regionais com conteúdos bem mais interessantes e bem redigidos do que outros (tanto de nível nacional, como concorrentes no âmbito regional) que ostentam uma qualidade gráfica superior, maior projecção no mercado e mesmo reconhecimento das “instituições” públicas, até as ligadas ao sector da comunicação social.

As políticas dos últimos anos têm seguido essa norma de avaliação, em muitos casos injusta. Com o argumento da “profissionalização”, apoiam-se, mesmo financeiramente, apenas os projectos que são editados por empresas jornalísticas, que “empregam” determinado número de pessoas, que publicam determinado número de exemplares por edição, e obedecem a um sem número de exigências que só os grandes jornais conseguem cumprir. Acontece isso em relação, por exemplo, à possibilidade de candidatura ao “Incentivo à Modernização Tecnológica” e ao “Incentivo à Leitura” que veio acabar com o Porte Pago. Ignora-se, assim, que também pode ter qualidade e ser uma importante mais-valia local um pequeno jornal de uma paróquia, associação ou instituição, que pode até envolver muita gente em regime de voluntariado ou trabalho não remunerado, apesar de não ter poder económico para dar “emprego” a funcionários ou por estar a desempenhar o seu papel junto do público restrito de uma aldeia, vila ou comunidade.

Com isto, o Governo opta por patrocinar apenas os jornais de grande expansão ou poder económico, os únicos que considera atingirem o patamar do pretenso “profissionalismo”, potenciando a concentração da comunicação social em grandes grupos editoriais, onde a “facturação” é o único critério, ou pelo menos mais importante do que a qualidade editorial – e isso é evidente em muitos deles. Os pequenos jornais ficam de fora dessa lista de apoios e, se quiserem sobreviver, terão de encontrar nas suas próprias receitas as armas para se modernizarem, para chegarem aos leitores e para combaterem a concorrência feroz e asfixiante dos títulos mais fortes. O resultado – não sabemos se propositado – é a diminuição da diversidade na opinião pública, a redução de potenciais vozes críticas, e a maior facilidade em controlar os conteúdos publicados a nível nacional e regional, pois basta exercer pressão ou “ter na mão” as poucas grandes empresas que, aos poucos, vão ficando “donas” de todos os jornais que circulam.

Grandes Grupos / Pequenos Independentes
Com esta nova realidade, deu-se um fenómeno de que poucos falam, nem mesmo nos mais recentes estudos que têm sido apresentados sobre a matéria: o facto de não haver apenas uma “imprensa regional”, mas dois tipos de imprensa regional (que poderão até subdividir-se mais). Dei a entender essa diferenciação no que acima referi, quando falo de “pequenos títulos regionais” ou de “concorrência dos grupos económicos, também a nível regional”. Parece-me que, actualmente, a diferença não estará tanto entre jornais nacionais/regionais, mas sim entre a imprensa que se encaixou nos “requisitos legais” e que é detida por grandes ou médios grupos económicos e aquela que é editada por pessoas ou entidades independentes dessa força económica, uns de âmbito regional e outros de âmbito meramente local, mas que a legislação não diferencia como tal.

De facto, também a nível regional temos vindo a assistir à concentração dos jornais – e mesmo rádios e agências de comunicação e publicidade – em torno de grandes grupos editoriais que dominam o mercado em determinada região. Compram títulos existentes, às vezes há décadas, para os assimilar ou aniquilar, estabelecem parcerias que lhes retirar a identidade que tinham, ou fazem uma concorrência agressiva àqueles que teimam em continuar independentes.

Com esta asfixia da concorrência comercial e sem apoios públicos, os pequenos jornais regionais e locais – a que chamo no título “jornais regionais independentes” – vão desaparecendo ou sobrevivendo com dificuldade. O seu futuro estará dependente do carinho e apoio que conseguirem angariar junto dos leitores e empresas/instituições locais. Só nas localidades onde se conseguir essa identificação das pessoas e a correspondente ajuda financeira das empresas, mais como patrocínio ao “seu” jornal do que pela contrapartida publicitária, será possível continuar a existir uma publicação regional independente. Ao mesmo tempo, só subsistirão aquelas que contarem com o trabalho voluntário e não remunerado ou pouco remunerado dos seus “fazedores”, pois será impossível à maioria suportar todos os custos que hoje são exigidos a uma publicação, desde o funcionamento da redacção à impressão e à expedição.

Publicações da Igreja
A nível nacional, grande parte destes títulos da imprensa regional independente são editados por paróquias ou instituições da Igreja, às centenas! Não me parece que a sua situação seja melhor ou pior do que a de outros jornais regionais, só pelo facto de serem da Igreja. Acontece-lhes o mesmo que aos outros: ou se tornaram grandes, ou estão asfixiados.

O facto é que muitos deles desistiram da luta concorrencial e mantiveram-se ao nível do que costumam fazer há décadas. Dependentes dos padres ou leigos que prestam esse serviço de forma gratuita e pouco qualificada, não evoluíram tecnologicamente, nem conseguiram responder às novas exigências, contentando-se com satisfazer os assinantes que angariaram no passado. Mas, pela falta de novidade editorial e de beleza gráfica, comparando com os produtos que inundam os mercados, debatem-se com a diminuição de leitores e incapacidade de cativar as gerações mais novas.

Mas há algumas excepções, com títulos da Igreja que são líderes de audiência. Motivo: ou não têm concorrência local de peso, ou tornaram-se eles próprios em empresas jornalísticas, geridas com objectivos comerciais assumidos. A questão fundamental, quanto a mim, está neste pormenor. Basta ver que mesmo alguns dos que acompanharam a evolução, apetrecharam as redacções com pessoas e materiais de qualidade e modernizaram o seu grafismo, lutam com dificuldades. Simplesmente porque não evoluíram também a nível comercial e administrativo.

Ao longo de décadas, as instituições da Igreja “deram cartas”, pois poucas tinham como elas a possibilidade de editar a nível local. O padre tinha conhecimentos, contactos, meios e disponibilidade que poucas pessoas na “terra” tinham. E usava essa potencialidade como meio de evangelização: mais do que noticiar, muitos boletins serviam sobretudo para veicular a opinião católica, defender os valores da doutrina e anunciar o Evangelho. Por isso, nunca encararam o jornal como “negócio” ou “empresa”. Se havia publicidade, era a suficiente para as despesas de impressão, pois não havia ordenados a pagar e a expedição era gratuita com o Porte Pago.

Hoje, é impossível continuar assim. Se assumem apenas o papel de meios de evangelização, terão de ser custeados como tal pela paróquia/diocese. Se querem afirmar-se como meios de comunicação social a par de outros concorrentes, sobretudo os de âmbito diocesano, têm de optar por uma gestão comercial rigorosa, que siga as regras do mercado, para angariar receitas e controlar despesas. Precisam constituir-se como empresas de comunicação, estabelecer uma estratégia comercial eficaz e garantir que, à actualização dos conteúdos, corresponde a liquidez financeira para viabilizar o projecto, inclusivamente no que diz respeito à candidatura a subsídios a que outros acedem. Quanto aos de âmbito local, a receita é mesma em relação aos jornais de outras entidades: se conseguirem identificação com os leitores e fontes locais de financiamento, está garantida a sua continuidade.

Nesta linha, julgo que muitos jornais de paróquia, embora com despesas acrescidas, continuarão a desempenhar o seu papel de sempre, dirigidos sobretudo aos fiéis da comunidade. Já os de âmbito diocesano, terão de reposicionar-se nos seus objectivos e modo de encarar o futuro. Mais do que um semanário em cada diocese parece-me exagerado e inviável. Mas um por diocese é perfeitamente aceitável, dentro dos princípios enunciados de proximidade ao leitor, assumindo um papel de alternativa aos grupos editoriais concorrentes, com a oferta de uma “visão católica” do mundo, tanto na forma de noticiar como na opinião publicada, nos diversos sectores da sociedade, cultura, política, desporto, economia, religião, etc.

Mas para isso precisam de se assumir como parceiros comerciais da comunicação social. Ter estatuto editorial claro, gestão comercial organizada e uma estratégia de captação de público bem delineada e executada. Depois, garantir uma redacção profissional, um grafismo moderno e uma rede de distribuição eficiente. Seguindo esse caminho, também a Igreja, mesmo de âmbito diocesano, pode ombrear com os grupos económicos que dominam o sector. Não como concorrente, mas como alternativa atraente e credível.

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